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Entrevistas

Educação monocromática

Cientista político da UFRRJ avalia que, para se tornar satisfatório, o ensino de história e cultura afro-brasileiras deve vir acompanhado da valores efetivos de condenação ao racismo

Publicado em 10/09/2011

por Redação revista Educação


Ahyas Siss

Pesquisa feita pelo Datafolha no final de novembro indicava que, ao menos no discurso, o racismo diminuiu entre os brasileiros. Se no último estudo, realizado em 1995, 22% dos entrevistados se sentiam discriminados em função de sua cor, o número caiu para 16% agora. Entre os autodeclarados "pretos", o número é mais alto, 41%. A contradição se agrava ao mostrar que apenas 3% dos brasileiros que não se consideram negros afirmam ser racistas, embora 91% apontem para o fato de que o branco é preconceituoso.

Ainda que especialistas afirmem que o que mudou foi a difusão do discurso politicamente correto e do pudor de soar preconceituoso, entre 1995 e 2008 um importante marco revelou as intenções do governo de incluir a diversidade étnico-racial na pauta da educação: a criação da Lei 10.639, de 2003, que obriga as escolas a incluírem no currículo a história e cultura africana e afro-brasileira. Para o cientista político Ahyas Siss, professor adjunto da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), doutor em Educação e especialista em diversidade étnico-racial, desigualdades raciais no ensino e formação de professores, a criação foi um avanço, mas pouco mudou, já que não há mecanismos para transpor os fundamentos do documento para a prática da sala de aula. Em entrevista à repórter Carmen Guerreiro, ele defende que só o conteúdo não basta para que haja respeito à diversidade étnico-racial. É necessário que seja um valor entre os professores e alunos.


O que mudou com a obrigatoridade da inclusão dos conteúdos sobre a diversidade étnica?


Primeiro, é preciso saber se houve inclusão. No contato que temos, na universidade, com os professores da Educação Básica, a principal reclamação é exatamente que falta conteúdo. O que não é verdade. Conteúdo existe, o problema é que eles o desconhecem. Para mudar o ensino da cultura e história africana e afro-brasileira não bastaria o conteúdo. Esse é um dos passos. É preciso ter uma certa competência para trabalhar com esses conteúdos, ou seja, ser formado para trabalhar com eles. E mais: é imprescindível que o que for passado como con­teúdo seja também um valor.


Por exemplo?


É preciso retratar a diversidade racial brasileira, e isso pode ser feito de várias formas. Imagine que um professor mostra um garoto branco, um de cor mais escura e outro de cor mais escura ainda. Aí diz: "A população é diversificada étnica ou racialmente. Esses meninos são pretos, mas são tão bonitinhos!". Para eles, a diversidade foi abordada. Mas de que forma isso é trabalhado? Já houve, há muito tempo, uma experiência na Bahia de inclusão no currículo desses conteúdos de diversidade, mas causou mais mal do que bem, porque as pessoas não estavam preparadas para trabalhar com o conteúdo. Em segundo lugar, não era um valor para eles. Isso significa que o conteúdo estava lá por estar e, quando é assim, não há transformação ou educação para a diversidade.


Como seria a forma ideal de aliar conteúdo e valores?


Primeiro, teria de existir uma sensibilização para trabalhar com esses conteúdos, que deveriam fazer parte da formação dos professores de uma forma específica e transversal. Ou seja: abordar os conteúdos especificamente e, ao longo desse aprendizado, esse assunto perpassar todas as disciplinas de formação. Mas não é isso o que acontece. No meu limite de visão, não há mudanças significativas. Ninguém mais reconhece que a sociedade e a escola brasileira são racistas e etnicamente excludentes. De 2003 para cá, no entanto, com a Conferência Mundial Contra o Racismo, promovida pela ONU em Durban (África do Sul), a questão do preconceito vem sendo mais divulgada do que antes. O Estado reconhece que somos um país racista. Mas ainda temos muito chão para andar.


O que tem de mudar, em termos de rumo, nessa caminhada?


A própria concepção de educação. Educamos quem, o que, para que, a partir de que, a partir de quem? Se um educador não fizer essas perguntas, vai apenas aplicar conteúdos. E se a solução fosse apenas estruturar currículo, o problema estaria resolvido. Até porque a maioria das escolas e ensino fundamental e médio contempla a diversidade nos seus planos. Mas como é trabalhada? E mais: se a licenciatura não forma professores para isso, como vão chegar na outra ponta, de frente para os alunos na sala de aula, e trabalhar de uma forma mais adequada? É muito complicado. Uma das soluções seria a da formação continuada, que, por sua vez, também enfrenta dificuldades.


A formação de professores consegue trabalhar esses conteúdos de diversidade?


Na universidade em que trabalho existe um curso de pós-graduação lato sensu que trata das desigualdades étnico-raciais brasileiras na educação. A maioria dos professores que lá estão são da rede pública e procuram uma informação mais aprofundada que permita trabalhar os conteúdos de diversidade em sala de aula de uma forma mais adequada. Mas isso angustia, porque não temos uma receita pronta para aplicar na escola. Propomos uma reflexão sobre a sociedade, decodificando relações culturais e sociais assimétricas de poder. Assim, cerca de 10% se evadem de uma turma de 50 pessoas, seja pelo não cumprimento das expectativas, por falta de estímulo das secretarias de Educação, falta de tempo – alguns cumprem tripla jornada de trabalho – ou pela questão dos valores.


Como os valores influenciam a questão da formação?


Quando abordarmos no curso alguns aspectos mais sensíveis, o trabalho se torna mais difícil. Na disciplina de subjetividade e religiões afro-brasileiras, por exemplo, se a pessoa é cristã bem fervorosa, costuma abandonar o curso nesse módulo. Não se propõe sequer que outro possa ter uma fé diferente, uma outra divindade. Ele pensa: ‘meu Deus é este, isso é o certo’. Nesse raciocínio etnocêntrico, se o educador pensa isso em termos de religião, imagina o que ele vai pensar em termos de discriminação étnica? O que me preocupa é que, apesar de a sociedade crer que existe o racismo, ainda mostra que o racista é o outro, nunca a própria pessoa. Sendo assim, como vai modificar sua prática pedagógica? Ele pode aplicar o conteúdo que for, que não vai haver transformação. Por isso que mostro que a diversidade tem de ser um valor, e isso demanda uma reformulação de valores na própria sociedade. Não dá para pensar uma prática isolada entre o que o professor acredita e o que ensina.


A escola ideal seria então a que conseguisse aliar valores de diversidade e os conteúdos?


Não existe perfeição, porque existe a diferença. O mundo sempre será diverso e, por isso, a escola também, já que os professores e os alunos fazem parte da sociedade. As pessoas não são obrigadas e gostar de "pretos" e "brancos". Mas precisam respeitar. A escola não é uma máquina de formar cidadãos, um aparelho no qual colocamos uma criança em cima e sai um cidadão embaixo. Não é assim porque a escola está permeada pelos mesmos conflitos que existem na sociedade.


Como a cultura contemporânea, a exemplo do hip-hop, pode ser trabalhada de forma a contribuir para o enriquecimento da cultura afro-brasileira na escola?


A cultura contemporânea cumpre o papel de tensionar nossos próprios limites na educação. A escola pode aproveitar muito dessa cultura, que é jovem, mas, na maioria das vezes, não o faz. Para muitos educadores, essa é uma cultura que tem letras ridículas, música chata, chula, que promove a violência, só critica o sistema. Com isso, eles marginalizam ainda mais a cultura contemporânea, que faz parte do dia-a-dia de muitos alunos e com a qual eles se identificam. A escola parte de uma postura preconceituosa sobre uma cultura que não conhece, não vê. Se ela aproveitasse elementos dessa arte, imagino que a educação seria muito mais gostosa. As práticas de ensino e aprendizado ganhariam outro significado para o próprio jovem, que se sentiria reconhecido.


O ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira ajuda a dissolver o preconceito na escola?


Acho que não é potente o suficiente para dissolver o preconceito, mas sim para desmistificar nossas ações etnicamente estereotipadas. Por exemplo, entender que a África é um continente de níveis e qual é a diferença das colonizações francesa, portuguesa, inglesa, belga… Acabar com o preconceito é difícil. A escola poderia se tornar um espaço menos agressivo para os afro-brasileiros, mas não acredito que tenha o poder de fazer a transformação e de erradicar o racismo da sociedade.


Quais são os desafios da educação para a diversidade étnica?


Em termos de futuro, é preciso que as leis 10.639 [que estabelece as diretrizes e bases para incluir no currículo a obrigatoriedade da temática história e cultura afro-brasileira] e  11.645 [que adiciona ao documento a história e cultura indígena, já promulgadas, avancem para a regulamentação. É necessário criar mecanismos para sua efetiva implementação. A lei diz que a Educação Básica precisa trabalhar o tema, mas não determina quem deve fazer isso. Logo, pressupõe que as universidades vão cuidar do assunto. Mas a universidade diz: "Isso está aí na lei, mas não é com a gente". Já para os estabelecimentos de Educação Básica, a questão é de formação de professores, ou seja, a tarefa é do ensino superior.
Por isso temos anos de implementação da lei e nenhuma mudança significativa. Pode-se ignorá-la tranqüilamente que nada acontece, é como se a determinação não existisse. Como vamos implementar a lei e fazer com que vire prática? O desafio é esse. Depois disso, valores podem começar a ser instituídos. Mas essa é uma conversa para o futuro.

Autor

Redação revista Educação


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