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Mais uma história da Ana

"Contei mais um pedaço de vida contada por uma Ana que me assegurou que o tempo de escola foi um 'tempo morto'" Leia mais um texto de José Pacheco

Publicado em 10/09/2011

por Redação revista Educação




Avô, conta mais uma história da Ana! Conta, avô!

– E eu contei mais um pedaço de vida contada por uma Ana que andou na escola “porque sim”, que me assegurou que o tempo de escola foi um
“tempo morto”

, que lá entrou como um
“pássaro livre”

e de lá saiu de
“asas estragadas”

. Porque era
“porque sim”

, porque
“pai manda e está mandado”

, e pronto! Passo a palavra à Ana, que me disse, a propósito do episódio que irei contar:
– Chorei ao lembrar, porque ainda dói em mim como uma ferida

.


Uns minutos antes da aula de História, a turma (já expliquei o que isso era) preparava-se para o que desse e viesse. E, quando a porta se abria para dar passagem à professora Joana, todos os alunos sentiam vontade de ir à casa de banho. A professora era mulher de ter estações e, naquele dia, era um Inverno bem estampado no seu rosto: o baton desbotado e a fugir dos lábios, um rimel que não rendia homenagens à simetria, os cabelos despenteados… Em dias assim, os alunos concentravam-se em sobreviver, invisíveis, fundidos na mobília. Até as moscas paravam de voar. Eram dias
“unifrásicos”

, como lhes chamava a Ana:
“páginas quarenta a quarenta e cinco!”

,
“páginas cem a canto e três”, “páginas cento e sete a cento e vinte e três!”

.



Ao contrário dos companheiros, a Ana nunca aceitou ser mobília. Do fundo da coragem e da baixa estatura, o dedo indicador emergia, desafiando a lei da gravidade, perante qualquer problema de compreensão, ele ia subindo, subindo. Devagar, mas subindo. Muitos professores aprovavam esse gesto e, por vezes, até era elogiada por estar sempre a perguntar, a tentar perceber tudo. A Ana tinha a cabecinha cheia de porquês”.




Interrompi a história, por instantes, para dizer ao meu neto que esse gesto da Ana não era um gesto sem sentido e muito menos isolado. Nesse tempo, numa outra escola, os alunos aprendiam a erguer o braço quando pretendiam falar. Era um gesto elementar na vida em grupo. Porém, quando esses alunos iam para outra escola, a coisa complicava-se. Numa aula (nas escolas para onde esses alunos iam ainda havia aulas), se o aluno levantava o braço, o professor dava-lhe a palavra. Quando soava a campainha (nas escolas para onde esses alunos iam ainda havia toques de campainha), o mesmo aluno passava para outra sala e, perante uma dúvida, erguia o seu braço. Logo ouvia o que não queria:
“Ó menino, acaba lá com essa palhaçada! Isso era lá na escola primária. Aqui falas quando eu te mandar! Ouviste bem?”

Na aula seguinte, o aluno já não sabia se deveria erguer o braço ou se o deveria manter quieto. A alternância das atitudes dos docentes instalava na psique dos alunos uma subtil espécie de esquizofrenia. Apesar de o Presidente da República desse tempo ter dito aos alunos, quando visitou essa escolinha, que mantivessem o dedo democraticamente erguido durante toda a vida, outras escolas viam nesse gesto um “preciosismo”. Mas voltemos à história da Ana.



Fosse para ser elogiada ou para ser ridicularizada, o seu dedinho nunca desistia. Só nas aulas de História ele sofria. Oh! Se sofria!… Elevava-se muito, muito devagarinho, e deixava a professora Joana perplexa. A pergunta saía numa voz sumidinha. A professora Joana apoiava-se na secretária, levantava-se, e do cimo da sua altura, em vez de responder à pergunta, punha toda a sala a rir-se da Ana. Ela perdoava os colegas, porque sabia que os seus risos eram forçados, como são forçados e perdoáveis os soldados que dizem matar por amor à pátria.




Ó Ana, és mesmo tonta! Não vês que só tu é que fazes perguntas e me fazes perder tempo? Olha para os teus companheiros! Vá, levanta-te! Vira-te! Vês alguém a fazer perguntas? Só mostras que és burra, que só tu é que não percebes!




Quando a professora assim falava, o coração da Ana descia até à ponta do pé. Por instantes, ia-se a coragem. Afundava-se na cadeira. Ficava tudo branco.



Fora da sala, os colegas diziam-lhe que perguntasse, perguntasse, perguntasse… Porque eles também nada entendiam o que a professora Joana ensinava. Disseram-lhe que contasse com eles, que a iriam apoiar, se voltasse a defrontar a professora. Foi então que a Ana decidiu ter uma conversa de mulher para mulher com a professora Joana. Estudou as palavras, a postura, para quando chegasse o momento. A professora veio, corredor abaixo, na sua direcção. A cada passo seu, o coração da Ana acelerava mais e mais. Talvez não estivesse preparada. Talvez fosse melhor deixar para outra altura.




Professora Joana, eu queria.




– O quê? Sai-me da frente! Já!




– Ó minha senhora, tem obrigação de me ouvir!




O quê?! Eu tenho a obrigação de quê?! Tu não passas de um fedelho insignificante. Quem é que tu achas que és? Hem? Fala! Vá, fala agora! Agora, sou eu que te mando! Vês? Não passas de um bebé! Um bebé, ouviste bem?

– A professora Joana entrou na sala. A Ana ficou colada à parede do corredor. Mas, recordada da promessa de apoio dos colegas, entrou na sala como um furacão. Perdida por um, perdida por mil.




– Professora Joana, eu e todos aqui presentes.




A professora não a deixou completar a frase: –
Tu e quem mais? Não vejo mais ninguém a queixar-se. Vamos lá a ver. Alguém tem razões de queixa? Alguém tem?…







Ninguém se mexeu. E, nesse dia, algo se partiu, ou morreu, dentro da Ana.




Leia também os outros textos publicados na série inédita e exclusiva do educador português José Pacheco:




La porte-plume redevient oiseau





Redundâncias





Educar da cidadania





O pai do Watson





O Senhor Carlos





A divisão das orações





Bem pelo contrário!…





A caixinha dos segredos





O padre, o poeta e a professora de francês





Para os filhos dos filhos dos nossos filhos





Tempus fugit




Autor

Redação revista Educação


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